“Putrefação intelectual” é o resultado do uso desmedido da IA, defende Rachel Varela em palestra no SinproSP
Por Catarina Martines | Foto: Catarina Martines
“Acho que a IA Generativa tem que ser banida da educação”. Foi assim que Rachel Varela iniciou sua palestra na última terça-feira, dia 1 de setembro, na sede do Sindicato dos Professores de São Paulo (SinproSP). A historiadora, socióloga e professora portuguesa é uma das principais referências no campo da História Global do Trabalho e na análise sociopolítica da Europa moderna e contemporânea. A sua obra adota uma perspetiva marxista defensora de uma "história vista de baixo", destacando a ação da classe trabalhadora em vez de apenas nas elites políticas.
Em passagem pelo Brasil, a palestra de Rachel para o SinproSP teve como tema “A refuncionalização da escola sob a IA e o neoliberalismo: expropriação do trabalho docente e intelectual”. Ao longo de sua fala, a pesquisadora relacionou a expansão da inteligência artificial generativa à transformação do trabalho intelectual e à perda progressiva da autonomia de profissionais que, historicamente, ainda mantinham domínio sobre o próprio conhecimento.
De acordo com ela, as IAs promovem “a putrefação das profissões intelectuais” uma vez que buscam automatizar o processo de raciocínio lógico humano. Dentro das escolas, espaço que deveria incentivar o desenvolvimento das habilidades dos alunos, o uso desmedido dessas tecnologias é preocupante. Para Varela, ao permitirem o contato cada vez maior dos estudantes com essas ferramentas, as instituições reproduzem uma lógica capitalista de preparação para o mercado de trabalho, quando a função da escola deveria ser outra: transmitir conhecimento e formar cidadãos.
Isso eles não podem tirar de nós
Para explicar o processo, a professora traçou um paralelo com as transformações provocadas pela Revolução Industrial. Segundo ela, trabalhadores como os antigos sapateiros dominavam diferentes etapas de seu ofício e possuíam um conhecimento adquirido ao longo de anos de prática. Com a mecanização, esse domínio foi retirado das mãos dos trabalhadores e incorporado às máquinas. O profissional passou a executar apenas uma parte do processo produtivo, em um ritmo determinado pela própria máquina.
Na avaliação de Varela, algo semelhante acontece atualmente com os trabalhadores intelectuais. Professores, jornalistas, advogados e outros profissionais ainda possuem o domínio sobre seu trabalho, mas passam por um processo de expropriação desse conhecimento. A pesquisadora também criticou o uso de plataformas educacionais que, segundo ela, fazem com que professores produzam gratuitamente dados e conteúdos utilizados pelas grandes empresas de tecnologia. Para Varela, o professor deixa de ser visto como um trabalhador responsável pela criação de suas próprias aulas e materiais pedagógicos e passa a cumprir funções determinadas por sistemas e ferramentas digitais.
Esse processo também afetaria os estudantes. Durante a palestra, Varela defendeu que a escola deve ser um espaço de desenvolvimento da memória, da atenção, da concentração, da capacidade de abstração e da sensibilidade. Porém, na sua visão o modelo educacional cada vez mais mediado por tecnologias prioriza a rapidez e a obtenção de respostas, habilidades associadas às exigências do mercado de trabalho. Ela defende que a escola, ao permitir a presença dessas tecnologias, vira uma espaço em que a mentira é permitida, onde não há mais diferenciação do aluno que usou IA e tirou 10 em um trabalho e outro que não usou e falhou na tarefa.
A professora também questionou a ideia de que a inteligência artificial representa necessariamente progresso ou inovação. Para ela, antes de discutir se uma ferramenta pode ser utilizada na educação, é preciso perguntar para quê e para quem ela serve e quais são suas consequências. “O que a humanidade ganha com isso? O que a humanidade perde com isso?”, questionou durante a palestra.
Em entrevista, Rachel ainda deixou um recado para os estudantes de jornalismo. “Eu aconselho os estudantes de jornalismo a pensarem, refletirem, lerem, escreverem, irem para as ruas, investigarem e não fazerem resumos do que aparece na internet ou nas agências. O jornalismo tem que ser parte da esfera pública e crítica e para isso tem que voltar a refletir, investigar e ouvir”.