50 anos por Valdo: três dias por uma vida inteira
Eventos em São Paulo prestam homenagem às famílias de mortos e desaparecidos durante a ditadura militar, eternizam fatos e pessoas e criam futuros possíveis em direção aos Direitos Humanos e à Democracia. Um deles, na Praça Memorial Vladimir Herzog, eternizou no solo da praça os nomes dos vencedores da principal premiação jornalística brasileira dedicada à esta agenda.
Por Thaís Manhães.
“O Aldir Blanc não falava a respeito do Almirante Negro, que tem por monumento as pedras pisadas do cais? Pois os grandes jornalistas, os que ganharam — e os que ganham — o Prêmio Vladimir Herzog, a partir de agora, têm aqui como monumento estes tijolos onde está a dignidade, onde está o melhor do jornalismo, o nome de um por um dos que receberam o Prêmio Vladimir Herzog”.
A fala é do jornalista Sergio Gomes, mais conhecido como Sergião, dita durante a inauguração da primeira etapa do Calçadão do Reconhecimento na Praça Memorial Vladimir Herzog, no último domingo, 26 de outubro. A obra a integrar a praça se trata de um conjunto de tijolos intertravados e fincados no chão do espaço de memória, com o objetivo de eternizar em cada bloquinho de barro o nome de cada um dos ganhadores do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, desde sua primeira edição em 1979.
Serjão é o principal articulador das intervenções e atividades nesta esplanada abrigada no coração de São Paulo, bem atrás da casa legislativa da cidade, da Câmara Municipal de São Paulo. Ele acompanhou todo o processo do então nascente memorial brasileiro. O espaço foi renomeado em 2013, como um dos desdobramentos da Comissão Municipal da Verdade Vladimir Herzog, proposta do vereador Ítalo Cardoso (PT), à época presidente da mesa legislativa, com aval da família Herzog.
O Calçadão é a quinta conquista que conclui o projeto artístico criado por Elifas Andreato, registrado em 2011 por Clarice Herzog, viúva do Vlado, no relatório final do órgão municipal criado para investigar violações dos direitos humanos no período da ditadura militar. O Mosaico 25 de outubro, o painel com os nomes dos 1004 jornalistas que assinaram o manifesto “Em Nome da Verdade”, a escultura Vlado Vitorioso e a réplica do Troféu Vladimir Herzog são as quatro obras precursoras que concretizam os ideais do memorial.
Lembrar e esperançar
O jornalista e diretor da OBORÉ, também conselheiro do Instituto Vladimir Herzog, Sergio Gomes, defende que o espaço é dedicado não apenas à preservação da memória do jornalista assassinado durante a ditadura militar (lembrar para não repetir), mas também aos seus sonhos e projetos para um jornalismo de qualidade, democrático e livre: “Não se trata de preservar o passado, a importância da Memória e da História, e sim de realizar as suas esperanças. Quais são os sonhos que animavam as pessoas, destes jornalistas que estão aqui? É preciso que se conheça um por um”, refletiu Sergio apontando para o Calçadão enquanto Kleber Pagu, artista responsável pela execução do projeto instalava os tijolos.
Neste dia, foi realizada a primeira etapa do Calçadão com 51 tijolos cravados, com os nomes do primeiro ganhador do Prêmio, e dos 50 honrados com os Prêmio Especial, categoria criada em 2009. O total de nomes a serem inseridos é de 1.625 nomes, 1.625 tijolos.
Mouzar Benedito (78) nome agora a compor o DNA da praça esteve presente na inauguração. Ele foi o primeiro ganhador do Prêmio na antiga categoria Jornal, em 1979. Ao ser questionado sobre a premiação à época, Mouzar registrou algumas palavras em vídeo, veja:
A matéria de Mouzar premiada está disponível AQUI.
Por mais referências e memoriais
As intervenções na Praça, assim como o mais novo Calçadão do Reconhecimento eternizam um passado e miram um futuro, municiando as novas gerações de referências jornalísticas para esperançar um horizonte democrático e com liberdade de imprensa. “Nós vamos ter aqui o ponto de partida para que as novas gerações, e os jornalistas que querem se qualificar tenham as suas referências. Sem jornalismo profissional não há democracia”, defendeu Serjão.
Os filhos, Ivo e André, e as netas e o neto de Vlado, acompanharam a instalação que aconteceu na ocasião do evento mensal que anima a praça há três anos, sempre nos últimos domingos do mês, o “Todo Mundo Tem Que Falar, Cantar e Comer”. Para Ivo, presidente do Instituto Vladimir Herzog, a Praça e Memorial ocupa uma lacuna de memória e cultura que o Brasil pouco pratica.
“Uma das fraquezas do Brasil é a falta de monumentos de memória, são muito poucos. E de repente vocês estão criando aqui hoje um grande monumento de memória, que conta um capítulo importante da nossa história, o que é [foi] um governo autoritário, o que isso leva para a sociedade. E essa memória é fundamental para que as novas gerações conheçam e ajudem a construir um futuro melhor”, disse Ivo, em entrevista ao lado do mural Alguns Personagens desta História, obra do cartunista Renato Aroeira que retrata 31 pessoas com a fisionomia que tinham à época do assassinato de Vlado, e que fazem parte da luta por justiça.
O artista Kleber Pagu, fundador do Museu de Arte a Céu Aberto (CEU) e Cassis Guarniçara, artista multiplataforma, produziram e instalaram os tijolos desta primeira etapa do calçadão de homenagens. Os nomes agora estão cravados à terra que defende os direitos humanos, a imprensa profissional e a democracia, acessível a todos que passaram pela esplanada.
“É uma calçada que nos remete a experiência de você poder caminhar por um lugar e relembrar, lembrar, reviver, de que a democracia, assim como essa praça, só é feita a partir da presença das pessoas. Se nós não estamos na Praça Vladimir Herzog, a Praça é só um nome. Se nós estamos aqui, produzimos aqui, se nós convivemos aqui, a Praça tem outro simbolismo, assim como a democracia”, defende Pagu.
Veja mais sobre o Calçadão neste reels.
Em tempo
A Praça, que fica atrás da Câmara Municipal de Vereadores, é dividida entre o poder executivo (Subprefeitura da Sé) e legislativo (Câmara Municipal). Segundo o artista, que define o espaço como “a melhor praça do mundo”, as articulações com as duas instâncias são promissoras, e o horizonte para o futuro se mostra favorável.
Nos últimos 15 anos de articulação e trabalho, focados na manutenção e realização de projetos neste espaço de memória, a Praça foi certificada como Ponto de Memória pelo Ibram - Instituto Brasileiro de Museus, e como Ponto de Cultura pelo Ministério da Cultura.
A festa “Todo Mundo Tem Que Falar, Cantar e Comer”, que ocupa a Praça todo último domingo do mês, entrou neste ano para o calendário oficial da cidade de São Paulo, a partir do projeto de Lei 397/2023, de autoria do vereador Eliseu Gabriel (PSB).
Este evento é uma síntese das pretensões do espaço: democrático, livre e a prerrogativa para participar é “quem pode, paga. Quem não pode, pega”. A atividade é realizada pela contribuição voluntária de braços de 23 entidades, dentre elas sindicatos, organizações estudantis, institutos, e amigos do Projeto Repórter do Futuro, da OBORÉ que põem de pé esta manifestação em prol da Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Eles se organizam no que chamam de Associação Cultural Amigos da Praça Vladimir Herzog, na qual o Serjão é o principal articulador.
“Acredito que nos próximos dez anos, de fato, teremos esta Praça com todo o potencial de equipamento cultural ao qual nós sabemos que já pertence. Então, temos a previsão do cinema, de outras obras de arte instaladas, a manutenção das obras que já existem, a continuidade desse calçadão…”, completa Kleber Pagu com entusiasmo.
A edição de outubro
Como todo mundo precisa falar, cantar e comer, esta edição histórica do evento, além de receber uma parte do Calçadão do Reconhecimento, recebeu o músico Marco Bernardo. O pianista apresentou um repertório de choros e músicas que marcaram a geração de 70, como o Bêbado e a Equilibrista, de Aldir Blanc e João Bosco, eternizada na voz de Elis Regina.
Na cozinha, a Confraria dos Cozinheiros da Liberdade assaram 20 quilos de pernil e prepararam o tradicional ‘Sanduíche do Estadão', lanche clássico dos jornalistas paulistanos e que, segundo Serjão, consumido por Vlado à época em que trabalhou no impresso.
Três dias por uma vida inteira
A atividade integrou os três dias de ações que marcaram os 50 anos do assassinato de Vladimir Herzog, morto em 25 de outubro de 1979, durante a ditadura militar. “Foram os três dias por uma vida inteira”, repete Serjão.
Em resumo, confira o que aconteceu durante estes três dias:
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Na sexta-feira (24), o filme “A vida de Vlado - 50 anos do caso Herzog” estreou na 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo;
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No sábado (25), Maria Elizabeth Rocha, atual presidente e em nome do Supremo Tribunal Militar, pediu perdão às pessoas mortas, desaparecidas e torturadas pelo regime militar durante a recriação do Ato Ecumênico de 79, organizado pelo Instituto Vladimir Herzog e Comissão Arns. A atividade contou também com a presença de Geraldo Alckmin (PSB), presidente em exercício, representando Lula (PT), atual chefe de estado;
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No domingo (26), a Inauguração do Calçadão do Reconhecimento, na Praça Memorial Vladimir Herzog;
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Na segunda-feira (27), aconteceu a 14ª Roda de Conversa com os ganhadores do 47º Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, atividade do Projeto Repórter do Futuro, da OBORÉ, em parceria com a Abraji, seguida pela solenidade de premiação. Dorrit Harazim e Dom Angélico Sândalo Bernardino (in memoriam) foram os homenageados especiais da edição.
Próxima edição do Todo Mundo Tem Que Falar, Cantar e Comer
Guarde na agenda, a próxima edição do evento será no dia 30 de novembro, último domingo do mês, e será base para a entrega da 11ª edição do Prêmio Averroes - Pioneiro e Compartilhador.