01/11/2025

47ª edição do Prêmio Vladimir Herzog aborda a importância do jornalismo na luta pela democracia brasileira

No marco dos 50 anos do assassinato de Herzog, o evento reúne grandes nomes do jornalismo brasileiro e homenageia aqueles que foram torturados durante a ditadura.

Por Gabriela César e Isabela Slussarek | Jornalismo Júnior.

Na noite de segunda-feira (27), o Teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (TUCA) foi palco da 47ª edição do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. O evento é uma das principais premiações jornalísticas do país e homenageia profissionais que defendem a democracia, a justiça social e os direitos humanos. Criado em 1978, o Prêmio segue os sonhos de Vladimir Herzog, jornalista assassinado em 1975 pela ditadura militar.

Fotografia durante a 47ª edição do Prêmio. Foto: Sofia Colasanto.

A premiação teve início com imagens da missa memorial a Herzog, que ocorreu na Catedral da Sé no último sábado (25). Juca Kfouri, mestre de cerimônia, iniciou sua fala destacando o impacto e a importância da missa para os 50 anos da morte de Herzog: “Não podemos permitir que esse país recue outra vez como recuou. Existe a necessidade de uma imprensa livre, ética e engajada em seu tempo histórico.”

Ivo Herzog, filho de Vladimir, ressaltou a importância da premiação para o jornalismo brasileiro e para a resistência da democracia: “Ao longo do último ano, coube aos jornalistas desmascarar notícias falsas que colocam em risco a nossa democracia”.

“O jornalismo é o poder que fiscaliza os outros três poderes, é o quarto poder.” Disse Ivo Herzog.

Ele também explicou mais sobre o significado do nome da premiação. “O Prêmio tem esse nome desde 1978, quando foi criado. Conforme o tempo passou, pensamos em mudar o nome, pois a palavra ‘anistia’ não fazia mais sentido nos últimos anos. Hoje em dia, o nome é mais atual do que nunca. Anistia jamais para os militares”.

Até hoje, 1.625 jornalistas foram premiados no evento. Foto: Sofia Colasanto/Jornalismo Júnior.

Prêmio Especial Vladimir Herzog

Em 2025, o prêmio recebeu 485 inscrições para oito categorias: arte, fotografia, áudio, multimídia, texto, vídeo, livro-reportagem e defesa da democracia. No Prêmio Especial Vladimir Herzog 2025, os dois homenageados foram Dorrit Harazim, uma das mais respeitadas jornalistas e documentaristas do Brasil, e Dom Angélico Sândalo Bernardino (in memoriam), reconhecido por sua atuação contra a violência e repressão na ditadura militar.

Dorrit iniciou seu discurso agradecendo ao Instituto Vladimir Herzog, expressando a honra de fazer a caminhada do jornalismo com a família Herzog. Ela também destacou sua passagem pelo jornalismo e a luta da resistência da profissão em meio às tentativas de derrubar a democracia brasileira.

A jornalista relatou sua trajetória semelhante à de Herzog, já que ambos vieram da Croácia ao Brasil fugindo da Segunda Guerra Mundial. Foto: Sofia Colasanto/Jornalismo Júnior.

“A necessidade do imigrante de construir pontes tornou-se um presente para minha vida toda. Encorajou-me a cruzar fronteiras de todo tipo: geográficas, culturais, sociais, geracionais, raciais – sem perder o meu norte. Ajudou-me a valorizar a escuta, ferramenta essencial para o jornalismo que pratico”, destacou.

“Nenhum manual de faculdade ensina o jovem a trabalhar com a censura. Ainda bem. Foi com o fim da ditadura que eu percebi a importância de exercer a profissão com liberdade.” Disse Dorrit Harazim.

Lembrado por sua resistência durante a ditadura, Dom Angélico foi homenageado como um dos principais representantes do setor progressista da Igreja. Mateus Bernardino Benato, jornalista e sobrinho–neto do Bispo, recebeu o prêmio em nome da família. No discurso, Mateus alega que “50 anos depois, esse Prêmio é muito especial. Não para fazer a simples memória de Dom Angélico, mas para atualizar seu legado, tornando-o presente e real”.

A premiação

Na categoria Áudio, o vencedor foi o primeiro episódio do podcast Dois Mundos: Nascimento e Morte, publicado no feed do programa Café da Manhã (Folha de S.Paulo). O podcast relata a investigação do correspondente Vinicius Sassine sobre o desaparecimento de um indígena em uma maternidade pública, encontrado morto no Instituto Médico Legal (IML) de Manaus após oito dias.

O podcast foi produzido por Raphael Concli, Daniel Castro, Gustavo Simon e Magê Flores, e narrado pelo correspondente Vinicius Sassine. Durante seu discurso, Sassine agradeceu a todas as fontes que se dispuseram a dar uma entrevista e destacou que, após o lançamento do podcast, o Ministério Público reabriu o caso.

A foto Antes que ela veja, de Márcia Foletto (O GLOBO), foi a vencedora na categoria Fotografia. A autora venceu a categoria por unanimidade, com 13 votos. “Eu quero dedicar esse prêmio a fotojornalistas que acreditam nisso [na capacidade de transformação da fotografia] e que põem o seu trabalho na luta pela justiça, pela democracia e pelos direitos humanos”, afirmou.

“Eu acredito, continuo acreditando e quero sempre acreditar, que uma fotografia é capaz de transformar.” Disse Márcia Foletto.

A imagem premiada retrata uma mãe cobrindo os olhos de sua filha enquanto policiais armados carregam o corpo de uma pessoa. Foto: Sofia Colasanto/Jornalismo Júnior.

Na categoria Produção Jornalística em Texto, o vencedor foi o trabalho de Isabel Harari e Carlos Juliano Barros: Trabalho infantil na indústria tech (Repórter Brasil). A reportagem trata de uma série de investigações sobre a relação direta de grandes empresas de tecnologia com o público infantil. Por meio de entrevistas, Isabel pôde analisar o trabalho realizado por menores de idade dentro das plataformas.

Segundo a Repórter Brasil, a reportagem explora os aspectos “da criação de games no Roblox, o treinamento da inteligência artificial do Kwai e do TikTok, chegando também às entregas do iFood e aos vídeos do Youtube.”

A série documental Território em Fluxo, produzida pelo Brasil de Fato, venceu a categoria Vídeo. Dividido em cinco episódios, a produção aborda as questões complexas do território conhecido como “Cracolândia”, na capital paulista.

O trabalho de Iolanda Depizzol, Nina Fideles e equipe, buscou escutar as versões de quem vive e está diariamente na região. A trama aborda diferentes aspectos como a história do bairro, iniciativas que promovem cuidado e cidadania, a gentrificação e a violência policial enfrentada pela população.

Iolanda destacou a importância da visibilidade ao tema da Cracolândia, pois os moradores foram dispersados pela polícia e os coletivos de ajuda têm dificuldade de criar vínculos com eles. “A situação é grave, é urgente e que possamos seguir denunciando e cobrando as autoridades responsáveis. A gente dedica esse prêmio a todas as pessoas da cracolândia e a esses coletivos”, ressaltou.

O livro-reportagem Decaído – A história do capitão do Bope Adriano da Nóbrega e suas ligações com a máfia do jogo, milícia e o clã Bolsonaro (Matrix Editora, 2024), de Sérgio Ramalho, foi o vencedor de sua categoria. A obra representa a história de vida de Adriano da Nóbrega, ex-capitão do Bope e líder do Escritório do Crime.

Em seu discurso, Sérgio afirmou que os jornalistas presentes representam “o bom e velho jornalismo”, aquele que dá destaque sempre à informação e não à personalidade por trás da notícia Foto: Sofia Colasanto/Jornalismo Júnior.

Na categoria Multimídia, os vencedores da noite foram a equipe do Metrópoles com a reportagem A Política da Bala, que levantou informações sobre 246 mortes decorrentes da letalidade policial na cidade de São Paulo. Renan Porto, representante da equipe, destacou que foi um privilégio estar no Prêmio e afirmou que, tanto Herzog no porão do DOI- CODI (Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna) quanto as pessoas na periferia de São Paulo, morreram de joelhos, desarmadas e forjadas pela polícia.

Defesa da democracia

Neste ano, a premiação instituiu uma nova categoria que foca nas produções sobre a defesa da democracia. Um dos premiados foi Allan de Abreu, da Revista piauí, com a matéria Os kids pretos: O papel da elite de combate do Exército nas maquinações golpistas. A reportagem explica o papel da elite de combate do Exército durante o governo Bolsonaro e nos atos contra a democracia realizados entre 2022 e 2023.

Allan explicou que a matéria nasceu de uma curiosidade sobre o que aconteceu na invasão do dia 8 de janeiro de 2023. Foto: Sofia Colasanto/Jornalismo Júnior.

A outra produção jornalística vencedora foi o documentário da GloboNews, 8/1 – A democracia resiste. Segundo o GloboPlay, o trabalho “traz imagens inéditas e depoimentos exclusivos dos principais personagens do poder, que contam como enfrentaram a ameaça golpista de 08 de janeiro de 2023”.

Júlia Duailibi, representante da equipe, afirmou que receber o prêmio no ano em que os golpistas foram julgados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e no marco dos 50 do assassinato de Vladimir Herzog torna a responsabilidade ainda maior. “É em nome de Vladimir Herzog também que a gente deve lembrar todo dia que a defesa da democracia tem de ser constante, um trabalho de todos nós, dia a dia.

“O jornalismo com espírito público independente e o jornalismo profissional é a melhor ferramenta para combater o autoritarismo.” Disse Julia Duailibi.

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